Pagu, eterna, internamente


Pagu, eterna, internamente


19 de agosto de 2010


Fonte: A Tribuna - SP


Emocionado com Viva Pagu, da professora Lúcia Furlani: um documento que coroa uma luta de resgate. Pagu estava em estado de "fossilização", mitificação estéril: Lúcia trouxe à luz um universo. Patrícia Galvão é um universo caleidoscópico que vai além de simplesmente Pagu. Paulo Francis, mestre de minha geração que completaria 80 anos em setembro, dizia que certos ícones, como Billie Holliday, Ana Magnani ou Callas, são mais que mulheres: representam "força da natureza". Assim vejo Pagu: ela se naturaliza amalgamada ao mar, à cultura, à arte visceral e epidermicamente. Paixão Pagu, livro que reúne cartas a Geraldo Ferraz, me deixou em êxtase semelhante à minha descoberta muito jovem de Clarice Lispector: Pagu desnuda-se de maneira que universaliza sentimentos preciosos: busca de sabedoria, prática intelectual eextremo desejo de ser amada. Me vi refletido em muito que essa personagem digna de Brecht e Gorki, mas com ares de Tennessee Williams, inspira: Pagu era Rosa Luxemburgo com excesso de lúcida sensibilidade de Blanche Dubois: "Um bonde chamado desejo". Libertária, não seguia ortodoxias; modernista, admirava Vicente de Carvalho; contraditória, múltipla: ela continha galáxias. Para o Brasil, para o teatro, para Santos, para a cultura seus 52 anos representam milênios que a escritora Lúcia ousou de modo exegético adentrar e esmiuçar como ourives do pensamento: intelecção com emoção. Pagu sempre me pareceu uma Antígona: a mulher que, em nome da liberdade e sacrificando por momentos valores como família, convenções e candura atribuídos a uma mãe, esposa e companheira, fez valer uma coragem que só a "anima mítica" é capaz para uma sociedade realmente humana! Um erudito francês, Lacarriére, diz: "Antígona, mesmo sendo de fonte puramente grega, pode ser estuários infinitos…" Foi nessa costa santense que Antígona ganhou nome de Patrícia. Aquela que não se rende, não concede, tudo enfrenta pelo sentimento e o espírito eterno. "Toda a vida eu quis dar. Dar até a anulação. Ninguém alcançou a imensidade de minha oferta". Esse trecho revela que, além da agitadora política, reveladora de talentos, generosidade à flor da alma, Pagu era fundamentalmente palavra, escritora. Esse vínculo entre Lúcia, Geraldo Galvão Ferraz, Rudazinho, o brasilianist David Jackson, Márcia Rodrigues, tem a mesma gênese: "a voluptuosidade da dádiva integral" a que se refere essa Patrícia constelada,Pagu que perpassaeterna e internamente por nós. Pegome imaginando Pagu questionando os descaminhos da arte com uma Bienal tão esvaziada de sentido, com a arquitetura social e urbana tão desarmoniosa, descobrindo novos autores de vanguarda, indignada com desapreço pela leitura, entristecida com a pobreza intelectual de nossos meios de comunicação de massa e cerrando fileiras por um Brasil menos desigual. Bradaria contra o fundamentalismo religioso, seria ambientalista, estaria ao lado dos que sonham uma sociedade cultivada e uma juventude criativa. Intuo Pagu hoje, sinto sua atmosfera, pretendo encarnar sua militância. Pagu centenária como Jean Genet, outro guia para meu caminho de luz pela fé dos sem fé: a arte. Pagu oceânica: uma foto me impressiona e enfeixa todas veredas de Pagu, na página 393, Pagu no mar de Santos: seu olhar expressa destino de assombro e bravura para com um mundo que não favorece os que sentem muito e profundamente. Viva Pagu, um evangelho que surge à minha cabeceira.


http://www.lufernandes.com.br/2010/nossos-clientes-na-midia/pagu-eterna-internamente/