Pagú: Ontem e Hoje.


Ela foi musa do antropofagismo, escritora, jornalista, poetisa, desenhista, militante política e agitadora cultural. Cem anos após seu nascimento, recebe homenagens e permanece como um exemplo de ousadia e determinação


INFÂNCIA E GRAVIDEZ
Patrícia Rehder Galvão
 nasceu no dia 9 de junho de 1910, em São João da Boa Vista (SP), em uma família burguesa e repressora. “O primeiro fato consciente da minha vida foi a entrega do meu corpo. Eu tinha 12 anos incompletos. Tinha plena consciência de todas as consequências que poderia enfrentar”, escreveu ela, em uma carta a seu terceiro marido, Geraldo Ferraz, publicada no livro Paixão Pagu (Ed. Agir). Aos 14, engravida de Olímpio Guilherme, galã da época, e tem seu primeiro aborto.
APELIDO A família muda-se para São Paulo, e Patrícia desfila pela cidade de camisa transparente, batom escuro e cigarro na boca. Em 1925, três anos depois da Semana de Arte Moderna, começa a publicar poemas e desenhos no Brás Jornal, com o pseudônimo Patsy. A jovem conquista os artistas modernistas, como o poeta Raul Bopp, que, pensando que ela se chama Patrícia Goulart, a batiza de Pagu.
TRIÂNGULO AMOROSO COM TARSILA E OSWALD Raul insere Pagu, então com 18 anos, no Movimento Antropofágico, e o casal Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral faz dela a queridinha do grupo. “Se o lar de Tarsila vacila, é por causa do angu de Pagu”, escreve Oswald, apaixonado pela jovem. Em um casamento arranjado por Tarsila e Oswald, ela se junta com um pintor e vai para a Bahia – tem 19 anos e está grávida do escritor (seu segundo aborto). Oswald deixa Tarsila e pede que Pagu volte.
NOIVA LIBERAL Dias antes de seu casamento com Oswald, Pagu, grávida novamente, o flagra com outra. Em carta a Geraldo Ferraz, então seu amigo, ela comenta o episódio e diz que foi apresentada como a noiva liberal. “Fingi compreender. O medo do ciúme ficou exposto. Tomamos café juntos, os três. Havia a imensa gratidão pela brutalidade da franqueza.”
MILITÂNCIA POLÍTICA Três meses após dar a luz a Rudá de Andrade, Pagu viaja para Buenos Aires, de onde traz livros comunistas. Em 1931, funda o jornal O Homem do Povo, levando Oswald para a militância. O tabloide é fechado e a dupla foge para Montevidéu, onde encontra o revolucionário Luís Carlos Prestes. Em prol do PCB (Partido Comunista do Brasil), ela deixa o filho, vai para o Rio de Janeiro, passa fome e é presa – nesse momento, passa a questionar os ideais políticos que a levaram até ali. A decepção com o partido a leva ao isolamento. Em 1933, publica o romanceParque Industrial, com o pseudônimo Mara Lobo, e mostra sua ligação com o comunismo mesmo fora do partido.
VIAGENS Pagu parte por conta própria para uma viagem internacional, durante a qual envia reportagens para jornais brasileiros, como uma entrevista com o pai da psicanálise, Sigmund Freud. NaManchúria, acompanha a coroação de Pu Yi, o último imperador, de quem recebe 19 vasinhos de soja. Raul Bopp, cônsul no Japão, encaminha as mudas ao Ministério da Agricultura, que inicia o cultivo do grão no Brasil. Em Moscou, a miséria derruba o ideal político de Pagu. Na França, ela é detida e repatriada.
PRISÃO Ela passa quatro anos encarcerada pela Intentona Comunista, lançada em 1935 contra o governo de Getúlio Vargas. Ao ser liberada, com 30 anos, abandona a luta comunista, separa-se de Oswald e casa-se com o escritor Geraldo Ferraz, com quem tem seu segundo filho, em 1941. Com o marido, ela edita o suplemento literário do jornal Diário de São Paulo, que apresenta autores inéditos no país, como James Joyce, Franz Kafka e Bertolt Brecht.
ARTES DRAMÁTICAS Na década de 1950, Pagu faz aulas na Escola de Arte Dramática de São Paulo e já não lembra a personagem polêmica: prefere ser chamada de Patrícia e foge dos holofotes. Ela se muda paraSantos com a família. Lá, trabalha no jornal A Tribuna e estimula a vida cultural da cidade.
CÂNCER Nos últimos anos de vida, Pagu exibe roupas escuras, cabelos despenteados e um ar melancólico. Em 1962, viaja a Paris para um tratamento de câncer. Lá, tenta suicidar-se com um tiro no peito, mas sobrevive. De volta ao Brasil, doa sua biblioteca de teatro à Escola de Arte Dramática e morre na casa onde morava, em Santos.
LIXO E HOMENAGEM Em 2004, uma catadora de lixo de São Paulo encontra fotos e documentos de Pagu jogados na rua – caso que ganha repercussão na mídia. Em 2010, ano no qual se celebra o centenário de nascimento de Pagu, ela é homenageada com uma fotobiografia e as exposições “Viva Pagu!” na Casa das Rosas, em São Paulo, e no Centro de Estudos Pagu, na Unisanta, em Santos.