Crônicas de um médico no III Reich

Crônicas de um médico no III Reich - Parte I: Kishinev

"Estou morto. Provavelmente isso é tudo que aqueles dois oficiais nazistas precisariam saber, além de proferir imprecações sobre como remover meu corpo dali e limpar toda aquela sujeira. Decisões que tomei em minha vida me levaram a morrer dessa forma estúpida, decisões das quais me arrependo. Bom, vou começar do começo.
Região dos pogroms
Meu nome é(ou costumava ser...) Mordechai ben Eliezer, sou de família judia russa, nascido em Kishinev(1), Sul da Rússia. Ser judeu nessa região do Império russo no final do século XIX e início do XX definitivamente não era um bom negócio. A política czarista era abertamente anti-semita, seja através dos pogroms que estavam acontecendo desde 1881, até a falsificação e publicação dos famigerados "Protocolos dos Sábios de Sião"(2). O Governo apoiava essa política com dois objetivos principais: diminuir drasticamente a população judia o mais rápido possível e desviar o ódio popular, principalmente camponês, a fim de controlar a onda revolucionária que desembocaria, em 1917, na Revolução Comunista.
Barbárie...
Pogrom significa, em russo, "tempestade" ou destruição", o termo se encaixa perfeitamente nesse tipo de ação, provavelmente governamental, que foi lançada sobre a população judia, de saques, assassinatos e outras selvagerias indizíveis, desde que o czar Alexandre II faleceu e o novo czar, Alexandre III assumiu o poder. Este cancelou várias regalias dadas aos judeus, que tinham levado a região a um grande crescimento econômico anos antes, e iniciou a perseguição através da figura de Pobedonostzev, um reacionário ultra nacionalista, procurador do Santo Sínodo da Igreja Ortodoxa. Os pogroms já aconteciam desde 1881, mas meu pai, que era dono de uma loja de secos e molhados na cidade, achava que nunca nada atingiria sua família. Levávamos uma vida confortável pra os padrões da época, minhas duas irmãs e minha mãe trabalhavam com meu pai, eu era muito pequeno naquele fatídico ano de 1903. Sob o domínio russo, a cidade tornara-se um ativo centro comercial e industrial, atraindo judeus de outras partes da Rússia, em busca de trabalho.
Judeu espancado em Kishinev
A merda toda teve início em fevereiro daquele ano, depois da morte de um menino cristão chamado Michael Ribalenko. Mesmo com a suspeita de que tinha sido um parente seu o autor do assassinato, comprovado mais tarde, o filho da puta do chefe de polícia local começou a espalhar o boato de que tinham sido os "judeus". Foi orquestrada nos jornais uma campanha de difamação sem precedentes, até que o estopim da violência foi forjado: o suicídio de uma jovem cristã, paciente de um hospital da cidade. Claro que tanto o assassinato quanto o suicídio nada tinham a ver conosco, mas isso só veio a público depois do início das ações.
Refugiados dos Pogroms
Às vésperas da Páscoa, o inevitável aconteceu. Primeiro de forma isolada, alguns espancamentos ou estupros, até a generalização do massacre. Meu pai, no decorrer de algum tempo, tinha escondido no porão da casa a maior parte de sua riqueza e isso foi nossa salvação. Ele chegou em casa com um olhar vidrado, vazio, ordenando à minha mãe que juntasse o maior número de pertences possível, estávamos fugindo para Varsóvia, Polônia, onde ele tinha alguns parentes. Minha mãe então perguntou, já pressentindo a desgraça, onde estavam minhas irmãs. Meu pai parecia um alucinado, juntando dinheiro, jóias, menorahs(3), então minha mãe entendeu o que tinha acontecido com elas. Não sei onde ela achou forças para a fuga, somente muito tempo depois, longe dali, eles desabariam em choro convulsivo e prestariam as homenagens fúnebres às minhas irmãs. Minha mãe nunca mais quis saber o que tinha acontecido, mas eu sim: foram estupradas e mortas em plena rua, enquanto a loja do meu pai era saqueada e destruída.
Uma parte do dinheiro de meu pai foi entregue ao chefe de polícia, para que ele fizesse vista grossa sobre nossa fuga, o que fez com que fugíssemos com poucos pertences mais objetos de uso pessoal e religioso. Tudo isso meu pai me contou em detalhes, em Varsóvia. Meus pais vieram a falecer alguns anos depois, acho que de desgosto, deixando grande parte de minha criação a cargo de um primo. Tinha resolvido adotar um nome não judeu, pois a Polônia era também em grande parte anti-semita e eu seguia carreira no exército como oficial médico especializado em cirurgia, me sentia obviamente muito mais polonês que russo. Não tinha sequer conhecido minha pátria natal.(CONTINUA) Notas do autor: (1) Durante o séc XIX, Kishinev era capital da Bessarábia. Atualmente é capital da República da Moldávia, parte da ex União Soviética. (2) Texto, surgido, originalmente, em idioma russo, supostamente alega-se terem sido forjados em 1897 pela Okhrana (polícia secreta do Czar Nicolau II), que descrevia um projeto de conspiração para que os judeus atingissem a dominação mundial.
Menorah

Crônicas de um médico no III Reich - Parte II: Varsóvia

Marcha alemã da vitória em 1939
"Durante muitos séculos, foi disseminado o ódio na Europa. Um ódio baseado em calúnias e infâmia, muito por instituições que pregam o amor e a tolerância como preceitos. O ódio ao povo judeu tem raízes profundas, na morte do Messias cristão, foi mantido por razões as mais diversas, e mais uma vez, naqueles anos lamentáveis, cobrou seu preço. A visão e objetivos de Adolf Hitler, do bem escrito "Mein Kampf", não era somente da criação de um Império econômico da sua Alemanaha. Passava também pela extinção de todo um povo, baseado em preconceito per se. Este preâmbulo nos leva diretamente ao ano de 1939. Meu país tinha sido invadido, de maneira rápida e avassaladora, a blitzkrieg(1) em sua melhor forma. Era a repaginação da história bíblica de Davi e Golias, soldados mal treinados contra máquinas de guerra, Panzers contra cavalos, aeronáutica mortífera contra nada.
O Gueto
Varsóvia 1940. Logo após a vitória, fácil e previsível, a Alemanha através de seu Governo Central começou a planejar o isolamento do povo judeu em guetos. A Judenrat(2) tinha conseguido atrasar a construção de um em Varsóvia, muito pelo argumento de utilizar o meu povo como mão de obra escrava. Em 16 de Outubro de 1940 foi criado e murado finalmente o Gueto. Era um verdadeiro depósito de vidas humanas, tinha uma população de 400.000 judeus num espaço exíguo, onde normalmente caberiam 60.000 pessoas. A vida lá dentro era muito dura, a ração de alimento para os judeus era mais de 10 vezes menor que a oferecida aos alemães da cidade. Mesmo assim, por um tempo, a Judenratconseguiu continuar com alguma atividade cultural e escolar.
Fuga durante o Levante do Gueto de Varsóvia
Eu era já oficial médico do exército, que através da proteção de colegas fiéis, tinha escapado do gueto. Usava nome não judeu e participava como colaboracionista do exercito invasor, minha primeira decisão equivocada. Que merda, eu deveria ter acabado com aquela farsa ali mesmo, mas meu amor à vida e minha covardia tinham impedido. Eu era um fraco, um omisso... Além disso, era muito útil ao invasor pelas minhas habilidades médicas, era cirurgião laureado e Professor titular da Universidade local, autor de trabalhos e inventor de técnicas cirúrgicas arrojadas. Isso me levou ao clímax de minha história, num lugar chamado Aushwitz, mas isso é pra depois...
Himmler em 1943
Ainda em 1940 a resistência judaica começou a se formar, talvez o único lugar do território ocupado. E foi só 2 anos depois que se formou o primeiro grupo de combate, mais ou menos na mesma época em que iniciou o que se denominou depois de Levante do Gueto. Os líderes, chefiados por um jovem de 24 anos chamado Anilevitch, fizeram o seguinte apelo: "Declaramos guerra à Alemanha, a declaração de guerra mais desesperada que já foi feita. Organizamos a defesa do gueto, não para que o gueto possa defender-se, mas para que o mundo veja nossa luta desesperada como uma advertência e uma crítica." Um dia, já em 1943, o próprio Himmler(3) em pessoa visitou o gueto de surpresa. Cheguei a conhecê-lo pessoalmente. Me pareceu extremamente metódico, um amor incondicional à causa do Führer, um zelo invejável no cumprimento de dever. Essas características o colocaram na História, infelizmente num lugar tão infame quanto essencial ao desfecho da guerra.
Trem chega a Treblinka
Foi dele que partiu a ordem direta de aniquilação total do gueto. Acredito só ter passado por um momento como aquele por ocasião da morte de meus pais. As execuções sumárias ou transporte para Treblinka(4) tinham acabado, agora o invasor ia reduzir a pó um bairro inteiro super populoso. Foram utilizadas bombas incendiárias, a Luftwaffe(5)entrou em ação contra população civil desarmada, foi um dos atos de guerra mais covardes de que se tem notícia. Em 16 de maio , o General Stroop enviou o seguinte telegrama a Hitler: "O bairro judeu de Varsóvia não existe mais" A conivência do povo polonês com aquele banho de sangue plantou a semente em meu coração daquilo que viria a ser o meu fim, num lugar ainda mais infame, longe dali.
Acho que talvez as acusações mais contundentes devessem ter sido feitas aos dirigentes do resto do mundo. Eles poderiam ter feito muito mais para evitar ou retardar o genocídio, e nada fizeram. Parece que só deram conta da incrível realidade daquela barbárie depois de descobertos os campos de morte, com seus fornos crematórios ainda fumegantes, e suas pilhas de corpos." CONTINUA NO PRÓXIMO E FINAL. Notas do Autor: (1) Blitzkrieg: Significa Guerra-Relâmpago. Consistia em utilizar ataques rápidos, brutais e de surpresa, utilizando muitas vezes infantaria, blindados e aeronáutica juntas. Essencial nas vitórias rápidas e desmoralização de inimigos na Segunda Guerra. (2) Judenrat: Conselho judeu, em alemão. Formado em cada gueto como forma de administração vinculado ao Exército invasor. (3) Heinrich Litpold Himmler: Comandante alemão, peça chave na execução do Holocausto judeu. (4) Treblinka: Quarto campo de extermínio da Polônia ocupada


Crônicas de um médico no III Reich - Parte III e final: Aushwitz

Só o trabalho liberta
"Fui transferido para Aushwitz no final daquele ano de 1943, segundo meu comandante eu faria parte como cirurgião de trabalhos científicos naquele campo. Os médicos chefes alemães aos quais eu seria subordinado eram Joseph Mengele e Carl Clauberg, entre outros, e segundo meus superiores, minha perícia e rapidez cirúrgicas seria essenciais no auxílio a esses trabalhos. Óbvio que eu não fazia idéia do que eu realmente encontraria ali e nada tinha me preparado para aquilo. Eu tinha sido originalmente designado para realizar ooforectomias(1), cirurgia bastante simples, mas que eu não via nenhum propósito serem realizadas em ambiente militar, até descobrir o que realmente estava sendo feito e os resultados que se procuravam. Do pórtico de entrada do campo, onde se lia que só o trabalho liberta, até a execução da maioria das experiências conduzidas ali, tudo era dissimulação e mentira. Desde a chegada dos prisioneiros, conduzidos como gado, passando pelo "preenchimento" de formulários em ambientes com altas de doses de radiação(para esterilizá-los), até a simples execução em câmaras de Zyklon B (2). Entrei em desespero, puro e simples desespero, mas tive a impressão de que poderia fazer alguma coisa para diminuir o sofrimento daquelas criaturas, não sei se só por piedade, mas uma forma de ser auto indulgente, de tentar diminuir a vergonha que eu sentia por ter traído a memória de meus pais e trabalhar como colaboracionista.
Vítima de experiência nazista
Conversando depois com oficiais alemães e colegas poloneses, fiquei sabendo que experiências médicas com cobaias judias, podemos chamar assim, eram disseminadas pela maioria dos campos de concentração da Polônia. Eram bem conduzidas, dentro do rigor científico e estatístico (3),e eram de maneira geral divididas em 3 categorias: Em primeiro lugar experiências que visavam a sobrevivência de oficiais do próprio Eixo. Em Dachau, por exemplo, oficiais médicos da Força aérea alemã realizaram experimentos sobre reações à altitude, usando câmaras de baixa pressurização, para determinar a altitude máxima da qual as equipes de aeronaves danificadas poderiam saltar de pára quedas, em segurança. Também experimentos com congelamento, usando prisioneiros como cobaias para descobrir método eficaz de tratamento de hipotermia, além de outros para testar vários métodos de transformação de água marinha em potável. Desnecessário dizer o número de mortes durante a condução destes experimentos
Cigano
Em segundo, desenvolver e testar medicamentos, além de métodos de tratamento para ferimentos e enfermidades. Nos campos de Sachsenhausen, Dachau, Natzweiler, Buchenwald e Neuengamme, foram testados agentes imunizantes e soros para tratar e prevenir doenças como malária, tifo, tuberculose, febre amarela, hepatite, inoculando os prisioneiros com tais doenças. Em Ravensbrueck foram feitos experimentos cruéis com enxertos ósseos, além de testarem a sulfonamida, a custa de muitas vidas. Em Natzweiler e Sachsenhausen, prisioneiros foram sujeitos aos perigosos gás mostarda e fosgênio.
Crianças de Mengele
Por último, experiências que buscavam aprofundar os princípios raciais e ideológicos da visão nazista. As mais infames foram as de Joseph Mengele, em Aushwitz, que utilizou gêmeos, crianças e adultos, além de experiências sorológicas em ciganos, querendo demonstrar diferentes comportamentos frente a doenças nas diferentes "raças". Foi num desses dias macabros que eu inesperadamente conheci meu fim. Ia começar o dia operando uma prisioneira do campo. Eu costumava fazer raquianestesia, embora nem todos concordassem em utilizar qualquer tipo de anestesia. Convenci-os, de maneira dissimulada, que aplicar anestesia facilitaria os procedimentos, pois os "pacientes" se mexeriam menos e fariam menos barulho do que simplesmente amarrá-los, como era hábito da maioria. Na verdade eu queria acabar com o sofrimento daqueles miseráveis, ao menos diminuir.
Cirurgias em Aushwitz
Tinha iniciado a intervenção, quando a prisioneira começou a balbuciar alguma coisa ininteligível, talvez consequência do barbitúrico que eu aplicava antes de iniciar a anestesia. Um dos soldados presentes, rindo, aplicou uma violenta coronhada na cabeça da paciente, mandando que se calasse, e gargalhando depois de constatar que sua atitude tinha despertado risos nos outros. Cheguei ao limite, não suportava mais aquela covardia, minha mente açoitada por pensamentos de vingança, virei-me, puxei a Lugger P08(4) do coldre do soldado, encostei em sua têmpora e puxei o gatilho. Foi tudo muito rápido, como um sonho...o cérebro dele voando aos pedaços pela sala junto com o spray de sangue vivo, os gritos e xingamentos, a confusão de tiros em minha direção...fui praticamente metralhado por 3 ou 4 Luggers, mas ainda tive tempo de esboçar um sorriso antes de desabar no chão, inerte. Uma grande lição para toda humanidade foi tirada desses dias sombrios, e que se espera que não se repitam, toda sordidez humana disfarçada de ideologia, toda sua desumanidade disfarçada de guerra. Não foi somente uma guerra, foi uma covardia sem precedentes. O neófito que criou o termo genocídio foi extremamente feliz em sua idéia." Notas do autor: (1) Cirurgia para retirada dos ovários.

(2) Zyklon B era a marca registrada de um pesticida a base de ácido cianídrico, cloro e nitrogênio que foi utilizada pelos nazistas como veneno no assassinato em massa por sufocamento nas câmaras de gás, era ativado em contato com ar.

(3) Ainda hoje se discute sobre se utlizar os resultados desses experimentos, que foram realmente bem conduzidos do ponto de vista científico, exceto é claro sua parte ética.

Lugger P08
(4) Principal pistola adotada pelo exército alemão, depois de 1908(daí seu nome), é considerada o maior souvenir da Segunda Guerra Mundial.





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