Dinamo


A 19 de Setembro de 1941, Kiev caiu para os nazis. A Ucrânia tinha oferecido uma resistência que Hitler não esperava. A entrada na capital foi particularmente cara aos nazis, como resposta, foi imposto um regime de castigo altamente duro e impiedoso.
A cidade, nesse inverno de 41 e princípios de 42, foi um túmulo gelado para muitos milhares de refugiados de guerra que chegavam da frente. Um decreto homicida promulgado pelos ocupantes nazis, proibia os prisioneiros de guerra de viver em casas e de trabalhar condenando à morte por fome e frio muitos milhares de homens e mulheres. Entre este exército de zombies doentes e desnutridos, estava Nikolai Trusevich, que tinha sido guarda-redes do Dínamo de Kiev.
Josef Kordik, um padeiro alemão a quem os nazis não perseguiam, precisamente pela sua origem e que fornecia pão ao exército ocupante era um fanático adepto do Dinamo. Uma tarde desse inverno de 42, reconheceu na rua, surpreso, um mendigo que era nem mais nem menos que o seu ídolo: o gigante Trusevich.
Com esquemas e subornos, o padeiro enganou aos nazis e contratou o guarda-redes para que trabalhar na sua padaria. Na convivência das conversas à volta do futebol e do Dinamo, decidiram refazer a equipe do Dínamo e empregar todos os futebolistas como padeiros.
Nas ruínas do que foi Kiev, entre feridos, doentes e mendigos lá se foi descobrindo, um a um, a equipe do Dinamo. Kordik deu trabalho a todos, esforçando-se para que ninguém descobrisse a manobra. Entretanto Trusevich encontrou também alguns rivais do campeonato russo, entre eles três jogadores da Lokomotiv, e também encontrou maneira de empregar na padaria do alemão.
Como o Dinamo tinha sido proibido, deram um novo nome para aquela equipa: FC Start. Através do padeiro que fazia de empresário, começaram a desafiar a equipas de soldados inimigos e selecções formadas pelos batalhões nazis estacionados na Ucraniania.
Em 7 de Junho de 1942, jogaram a sua primeira partida a sério. Apesar de estarem de em baixo de forma devido à fome, venceram as Transmissões do Reich por 7 a 2. O seu rival seguinte foi a equipa de uma guarnição húngara, ganharam de 6 a 2. Depois meteram 11 golos a uma equipa romena.
A coisa ficou séria quando em 17 de Julho enfrentaram uma equipa Selecção do Exército alemão e golearam por 6 a 2. Muitos nazis começaram a ficar chateados pela crescente fama do grupo de empregados da padaria. Trouxeram da Hungria o MSG com a missão de derrotá-los, mas o FC Start goleou mais uma vez por 5 a 1.
Em 6 de Agosto, convencidos da sua superioridade, os alemães prepararam uma equipa com membros da Luftwaffe, o Flakelf, que era uma grande equipa, utilizado como instrumento de propaganda de Hitler.
Os nazis tinham resolvido buscar o melhor rival possível para acabar com o FC Start, que já gozava de enorme popularidade. A surpresa foi grande, porque apesar da violência e falta de desportivismo dos alemães, o Start venceu por 5 a 1.
Depois desta derrota que humilhou o orgulho ariano, de Berlim chegou uma ordem de acabar com o clube e com todos os jogadores, inclusive com o treinador padeiro. Mas as hierarquias nazis locais não se contentaram com isso. Antes de fuzilá-los, queriam derrotar a equipa num jogo. A desforra foi anunciada para 9 de Agosto de 1942, no estádio Zenit. Antes do jogo, um oficial da SS entrou nos balneários e disse em russo: -"Vou ser o arbitro, respeitem as regras e façam a saudação nazi”.
Já em campo, os jogadores do Start (camisa vermelha e calção branco) levantaram o braço, mas no momento da saudação, levaram a mão ao peito e no lugar de dizer: -"Heil Hitler !", gritaram -"Fizculthura !", uma expressão soviética que proclamava a cultura física.
O Start chegou ao intervalo ganhando por 2 a 1 e por isso receberam novas visita ao vestiário:
-"Se vocês ganharem, não sai ninguém vivo".
A ameaça teve um efeito contrário. O Dínamo, deu um baile aos nazis. Já quase no final da partida, quando ganhavam por 5 a 3, Klimenko, um dos avançados, ficou cara a cara com guarda-redes alemão. Fintou o guarda-redes, e isolado em frente à baliza, deu meia volta e chutou a bola para o meio campo. Foi um gesto de desprezo, de superioridade total. O estádio veio abaixo.
Mais tarde, a Gestapo visitou a padaria.
O primeiro a morrer foi Kordik, o padeiro. Os outros foram presos e enviados para os campos de concentração de Siretz.
Goncharenko e Sviridovsky, que não estavam na padaria naquele dia, foram os únicos que sobreviveram, escondidos, até a libertação de Kiev em Novembro de 1943. O resto da equipa foi torturado até a morte.
Ainda hoje, os possuidores de entradas daquela partida têm direito a um assento gratuito no estádio do Dinamo de Kiev. Nas escadarias do clube, conserva-se está um monumento que saúda e recorda aqueles heróis do FC Start.
Seis meses depois da vitória no futebol do Dínamo, o povo soviético vencia a besta nazi na Batalha de Stalingrado, fazendo a guerra mudar de rumo e abrindo caminho à Libertação da Ucrânia.
http://fechadoparademolicao.blogspot.com/2010/12/dinamo.html