Modernismo - Parque Industrial

[...]
Na grande penitenciária social os teares se elevam e marcham esgoelando. Bruna está com sono. Estivera num baile até tarde. Pára e aperta com raiva os olhos ardentes. Abre a boca cariada, boceja. Os cabelos toscos estão polvilhados de seda.
- Puxa! Que este domingo não durou… Os ricos podem dormir à vontade.
- Bruna! Você se machuca. Olha as tranças!
É o seu companheiro de perto.
O chefe da oficina se aproxima, vagaroso, carrancudo.
- Eu já falei que não quero prosa aqui!
- Ela podia se machucar...
- Malandros! É por isso que o trabalho não rende! Sua vagabunda!
Bruna desperta. O moço abaixa a cabeça revoltada. É preciso calar a boca! Assim, em todos os setores proletários, todos os dias, todas as semanas, todos os anos.
Nos salões dos ricos, os poetas lacaios declamam:
Como é lindo o teu tear!
[...]
Novamente as ruas se tingem de cores proletárias. É a saída da fábrica. O apito escapa da chaminé gigante, libertando uma humanidade inteira que se escoa para as ruas da miséria. Um pedaço da fábrica regressa ao cortiço.
Patrícia Galvão (Pagú)
O que li
Diz o velho provérbio popular que "para um bom entendedor, poucas palavras bastam". E como bastam! Ainda mais quando ditas com sabedoria, conhecimento de causa e com a eficiência de quem sabe verbalizar de forma sucinta situações recheadas de particularidades, a exemplo de uma das principais mazelas sociais sempre presente nas organizações humanas: a exploração da maioria pobre e mais fraca pela minoria rica e mais poderosa, tema este exposto no livro "Parque Industrial", da escritora, poetisa, desenhista e ativista cultural e política Patrícia Galvão (a Pagú - nome de destaque da chamada "Segunda Geração Modernista" brasileira), do qual reproduzimos um pequeno "grande" trecho; pequeno no tamanho, mas gigante na mensagem que consegue passar ao leitor.
Considerado uma jóia da literatura brasileira do século XX, "Parque Industrial" foi escrito em 1932 e publicado pela primeira vez em 1933, numa edição de tiragem e divulgação pequenas financiada pelo escritor Oswald de Andrade. Primeiro romance proletário brasileiro, o livro mostra a realidade vivida pelos excluídos da sociedade paulistana, vítimas de uma desigualdade social que (tal como acontece nos dias atuais) massacrava e humilhava as camadas populares e privilegiava uns poucos detentores do poder político e econômico.
Por ser um romance de caráter extremamente político-social, e em razão de atrito com o Partido Comunista, ao qual era filiada e no qual enfrentava restrições devido à sua origem pequeno-burguesa, a autora foi impedida de assinar o livro com o seu nome verdadeiro, valendo-se, para isso, do pseudônimo "Mara Lobo", fato que não tirou o brilho da iniciativa.
Apresentada a obra, falemos mais sobre a autora Patrícia Galvão, nome também pouco falado nos livros didáticos e nas aulas de Literatura Brasileira em todo o país, mas de grande movimentação e produção, tanto nos meios literário e cultural quanto na vida política brasileira.
Nascida em 9 de junho de 1910, em São João da Boa Vista /SP, Patrícia Rehder Galvão tinha apenas 12 anos quando, sob o comando dos escritores Oswald e Mário de Andrade, o Teatro Municipal de São Paulo entrou para a história como sede de um movimento artístico-literário que marcou uma mudança radical na forma de produzir arte e literatura no País: a Semana de Arte Moderna realizada em fevereiro de 1922 - marco inicial do Modernismo brasileiro. Seis anos depois (em 1928), então com 18 anos de idade, a jovem poetisa recebeu do escritor Raul Bopp o apelido de "Pagú" e foi por ele introduzida no salão da Alameda Barão de Piracicaba, nas reuniões oferecidas pelo escritor e poeta Oswald de Andrade e pela artista plástica Tarsila do Amaral - "o casal mais admirado e requisitado da sociedade paulistana".
Sob a influência do casal, de quem se tornou grande e inseparável amiga, Pagú participou ativamente do movimento antropofágico liderado por Oswald e marcado pelo radicalismo dos princípios da primeira fase do Modernismo brasileiro de rompimento com o passado e com toda e qualquer regra academicista na produção literária. Dois anos depois (em 1930), casou-se com Oswald (sem perder a amizade de Tarsila) e da relação nasceu o filho Rudá de Andrade. No ano seguinte (1931), filiou-se ao Partido Comunista; editou, junto com Oswald de Andrade, o jornal "O Homem do Povo" (onde assinou a coluna feminista "A Mulher do Povo"), e acabou sendo presa pela primeira durante participação em comício do partido e dos estivadores, em Santos.
Em 1933 Patrícia Galvão publicou o seu primeiro romance ("Parque Industrial"), sob o pseudônimo de Mara Lobo, e depois saiu em viagem pelo mundo, passando pelos EUA, Japão, Polônia, Alemanha, URSS e França. Em 1935, sob a identidade de Leonnie, foi presa em Paris (como comunista estrangeira) e repatriada para o Brasil, onde começou a trabalhar no jornal "A Platéia". Separada definitivamente de Oswald de Andrade, foi novamente presa e torturada, ficando na cadeia por cinco anos. Ao sair da prisão (em 1940), rompeu com o Partido Comunista; casou-se com o jornalista Geraldo Ferraz, e iniciou intensa participação na imprensa, atuando sobretudo como crítica de arte. Em 1945 saiu o seu segundo romance: "A Famosa Revista", escrito em parceria com Geraldo Ferraz.
Dedicando-se à crítica literária, teatral e de televisão, à produção literária ((escreveu também contos policiais, sob o pseudônimo King Shelter, publicados na revista Detective, dirigida pelo dramaturgo Nelson Rodrigues) e à militância política, Pagú destacou-se, sobretudo, pela coragem de defender seus ideais, característica que lhe rendeu vinte e três prisões, além de muita perseguição, humilhação e tortura.
Aos 52 anos de idade, Patrícia Galvão morreu no dia 12 de dezembro de 1962, pouco tempo depois de ser submetida, em Paris, a uma cirurgia para retirada de um câncer.
Sobre sua principal obra, a crítica especializada escreveu:
"Parque Industrial, que Pagú escreveu ainda muito jovem, foi um marco: é considerado o primeiro romance proletário brasileiro. O livro adentra, com todas as cores reais, o cotidiano das mulheres operárias da década de 30 na região do Brás, em São Paulo. No Parque Industrial de Pagú estão os dias cansados, as ruas, as casas, os quartos, os sonhos das operárias. Lá está a trabalhadora grávida, que perde o amante, o emprego, o filho, a liberdade [...] Pagú mostra o despertar das operárias para a luta. 'O Brás acorda. A revolta é alegre. A greve, uma festa!'. Depois, mostra a repressão. No Parque Industrial, Pagú se veste de todas aquelas mulheres. Ela é Rosinha Lituana, dirigindo e encorajando as colegas. Ela é a esperança de Otávia, é a dor de Corina."

Grygena Targino GRYGENA TARGINO É FORMADA EM PEDAGOGIA PELA UFPB E ALUNA DOS CURSOS DE LETRAS (UFPB) E DE ESPECIALIZAÇÃO EM PSICOPEDAGOGIA (UNIPÊ)jg.leituraobrigatoria@hotmail.com

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