Por que ler Mein Kampf?

Mein Kampf ou Minha Luta (em bom português) ainda é um dos livros mais polêmicos da história. Para justificar tal polêmica bastaria dizer que trata-se de um livro escrito por Adolf Hitler, mas tal argumento não é suficiente para justificar esta coluna.


Escrito em 1924, período em que Hitler foi preso político, o "livro maldito" é hoje proibido na Alemanha. Os demais países que desejem publicar a a obra nacional-socialista passam por difíceis e complexas negociações com o estado da Baviera (cujo detêm os direitos de publicação). Já em países como Síria e Irã a obra do líder nazista é recorde de vendas.


A bíblia nazista (termo pejorativo, posteriormente adotado pelos simpatizantes de Hitler) pode gerar dores de cabeça em quem quiser debater sobre a liberdade de expressão. Eu vejo por outro lado:


Hoje em dia os campos de concentração são preservados para gerações futuras saberem o que aconteceu, com o mesmo objetivo temos o museu do holocausto, centenas de livros publicados, depoimentos de sobreviventes, filmes sobre a guerra, sobre a perseguição judaica e sobre os generais de Hitler. Todos nós sabemos quais as consequencias do pensamento germano-imperialista porém poucos conhecem o seu início.


Já ouvi muitas teorias como: o pai de Hitler seria judeu e batia nele; a mãe de Hitler fora estuprada por um judeu ou as idéias eugenistas de Hitler devem-se à um homossexualismo recalcado. Todas estas teorias esdrúxulas são frutos da ignorância. O nazismo veio de algum lugar. Em Mein Kampf Hitler faz uma autópsia da situação política-econômica-social da Alemanha do início do séc. XX. O que ajuda a entender o surgimento do nacional-socialismo.


Hitler escreve sobre sua infância pobre, sua vida como operário, identificação com a classe operária, a luta na guerra, sua entrada no partido trabalhista alemão e a fundação do "Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães". Hitler ensina como ganhar uma eleição, adquirir a identificação do "povão" e como fazer a propaganda política. Estas e outras armas são utilizadas até hoje em vários países, inclusive no Brasil.


Inibir o Mein Kampf pode até auxiliar no combate ao nazismo mas abre brechas para outros movimentos igualmente perigosos com início semelhante, o qual quase ninguém conhece. Finalizando meu argumento cito "Mein Kampf - A história do livro" escrito por Antoine Vitkume da editora Nova Fronteira. O autor pesquisou a história da obra, concluindo que a pesar da vendagem de 12.5 milhões de exemplares a bíblia nazista não é tão influente como se pensa, a maioria dos criminosos nacionais-socialistas admitem nunca terem lido o "Mein Kampf" mostrando que a ignorância é muito mais perigosa do que qualquer livro.




Diego Tiscar é psicólogo clínico e colunista do Olhar nacional.


dtiscar@gmailcom