Leia um trecho do livro "Amores proibidos..."


"Amores proibidos nunca foram fáceis. Por influência de algum mecanismo insensato da psiquê humana, as paixões se tornam ainda mais sedutoras, perturbadoras e atraentes quando há algum impedimento para que se realizem em toda sua plenitude. É justamente na impossibilidade de se entregar plenamente ao outro que o mais nobre dos sentimentos acaba muitas vezes se confundindo com os seus opostos, a dor e o sofrimento.

"Não deixa de ser curioso, no entanto, que essa dubiedade tenha sido responsável ao longo dos tempos por impulsionar e mudar os rumos da humanidade. Quantas guerras e decisões políticas terão sido secretamente motivadas por um amor proibido? A criação artística também se abastece amplamente dessa fonte. A música, o teatro, a dança, a literatura, todas essas formas de expressão se inspiram com muito mais frequência em angustiantes paixões não correspondidas e amores rompidos do que na tranquila sensação de viver um amor sem complicações.

"Ao descrever paixões vividas por personalidades da história do Brasil, este livro evidencia que, quando se trata de assuntos do co ração, todos são gente como a gente, sujeitos a erros e acertos, dúvidas e certezas. Apresentadas em conjunto, as histórias formam um panorama dos nossos mais conhecidos e importantes amores proibidos. Os sete relacionamentos incluídos trazem, como ponto em comum, o fato de terem brotado em meio a grandes obstáculos - adultério, conflitos de classe, preconceitos, convenções sociais ou disputas por poder.

"A primeira história é sobre o surpreendente relacionamento entre o rico contratador de diamantes João Fernandes e a escrava Chica da Silva. Fernandes podia escolher qualquer sinhazinha como esposa - havia uma fila de pretendentes -, mas encantou-se com Chica quando a viu pela primeira vez, em 1753. Era um relacionamento proibido por dois fatores. O primeiro, de ordem prática, é que ela pertencia a outro homem, um influente juiz da região do Arraial do Tejuco, atual cidade de Diamantina, em Minas Gerais. O segundo é que não era comum à época que um homem branco e rico escolhesse uma escrava como esposa - muitos tiravam proveito sexual das suas escravas, mas não assumiam essas relações e muito menos os filhos resultantes delas. João Fernandes precisou de firmeza e coragem para subverter os padrões vigentes.

"No caso de Dom Pedro I e Domitila Castro, que se tornaria mais conhecida como marquesa de Santos, o maior impedimento para a relação, iniciada em 1822, era o fato de o príncipe ser casado com Leopoldina. Quando a esposa de Dom Pedro morreu, ainda muito jovem, os problemas passaram a ser outros. Havia uma grande oposição popular à possibilidade de uma união dele com sua amante, considerada responsável pelo adoecimento da imperatriz.

"Além do mais, Dom Pedro sentia a necessidade de estabelecer uma nova aliança estratégica com uma família nobre europeia, como de fato acabou ocorrendo. Domitila, que talvez tenha sido a única mulher que o príncipe verdadeiramente amou, não cabia nesses planos. Assim, a ardente e intensa paixão entre os dois chegou ao fim depois de sete anos.

"Motivos para considerar proibido o amor entre Giuseppe e Anita Garibaldi também não faltam. Quando o revolucionário italiano conheceu a jovem na cidade catarinense de Laguna, em 1839, ela era casada. Além disso, Anita se envolveria em uma série de aventuras à margem da lei ao seguir Giuseppe. Essas mesmas circunstâncias podem ser evocadas para descrever a origem do relacionamento entre Lampião e Maria Bonita, em 1930. Ela também era casada e, por amor, aceitou se submeter à vida errante dos cangaceiros. Tanto Anita quanto Maria Bonita pagaram com a vida pelas escolhas feitas.

"No que diz respeito a Joaquim Nabuco e Eufrásia Teixeira Leite, o amor se tornou proibido não porque um dos dois fosse comprometido - ao contrário, ambos eram livres quando se conheceram, em 1873 -, mas por uma série de desencontros de expectativas e diferenças de opinião. No início, a maior polêmica parecia ser o grau de intimidade permitido para o namoro. Logo outros impasses bem mais complexos surgiriam, contudo. Eufrásia era muito rica e tinha medo de que o bon vivant Joaquim torrasse a fortuna que ela havia herdado do pai. Outro empecilho para o casamento é que ela não aceitava morar em outro lugar que não fosse Paris, enquanto ele não imaginava seu futuro distante do Brasil. Além do mais, Eufrásia vinha de uma família com tradição escravocrata e Joaquim se tornaria justamente o maior líder do movimento abolicionista. De impasse em impasse, 15 anos se passaram - até que Joaquim, cansado de esperar, decidiu se casar com outra.

"Chiquinha Gonzaga teve que enfrentar o preconceito social contra a diferença de idade ao se apaixonar por Joãozinho, 36 anos mais jovem, em 1899. Mulher independente e realizadora, ela já havia superado uma série de dificuldades, como separar-se de dois maridos e conquistar um espaço até então inédito para mulheres no cenário musical brasileiro. Mesmo com esse histórico, Chiquinha não encontrou forças para assumir de peito aberto o relacionamento com o rapaz. Preferiu divulgar a versão de que Joãozinho era seu filho, sustentada até o final da vida, quase quatro décadas depois - período em que o rapaz se manteve como seu companheiro fiel e inseparável, contrariando todos os prognósticos de quem imaginava um relacionamento breve.

"Já o amor entre Oswald de Andrade e Pagu surgiu tão intenso que todo mundo imaginou que duraria para sempre. Em 1928, aos 40 anos, ele deixou a mulher, a pintora Tarsila do Amaral, para viver com a jovem escritora. O relacionamento começara sob o estigma do adultério, um fantasma que jamais deixaria de existir entre eles, pois Oswald mantinha relacionamentos com outras mulheres mesmo depois de casado com Pagu. Sob as bênçãos do modernismo, que tinha como uma das premissas o rompimento com a tradição romântica, ele queria que Pagu concordasse placidamente com essa situação, mas sem ter direito ao mesmo grau de liberdade. Outro elemento complicador da relação foi a entrega de Pagu à militância comunista - o partido vivia na clandestinidade e ela foi presa inúmeras vezes. A relação não resistiu a tantas turbulências e se desfez depois de sete anos.

"Quando tomamos conhecimento dos detalhes de todas essas histórias, uma questão logo se impõe: será que essas pessoas se arrependeram de ter vivido casos de amor tão intensos e sofridos? Teriam preferido uma trajetória mais tranquila, mais segura, sem tantos sobressaltos? Ou o amor sempre vale a pena, independentemente dos obstáculos e das dores que fazem parte do pacote? Talvez essa resposta, leitor, caiba a você. Boa viagem ao fascinante universo dos amores proibidos".

Fonte: Oliveira, Maurício. Amores proibidos na História do Brasil. http://www1.folha.uol.com.br/livrariadafolha/1046667-leia-trecho-de-amores-proibidos-na-historia-do-brasil.shtml