A doença do Rei

 D. Afonso VI, Rei de Portugal, cognominado O Vitorioso, foi atacado, ainda na primeira infância, de uma doença denominada febre maligna pelos médicos do tempo e ficou hemiplégico e intelectualmente incapaz, o que lhe dificultou a educação que, segundo parece, não foi esmerada. O rei ia crescendo rebelde a toda a ação coerciva ou persuasiva dos preceptores, manifestando gostos grosseiros e sentindo-se atraído pela companhia de rapazes de baixa classe, que chegaram a ser admitidos no paço e em cujo pátio se batiam para gáudio do monarca. Foi declarado mentecapto e impotente pelos médicos. Apesar de se saber e ser de todos conhecido que o monarca era impotente para procriar, decide-se contratar uma prima de Luis XIV, Maria Francisca Isabel, com quem D. Afonso VI veio a casar, por procuração, em 27 de Junho de 1666. Entrou a nova rainha em Lisboa dois meses depois e, logo de início, deu conta do desequilíbrio do rei, o que lhe desagradou profundamente. D. Francisca cria uma cabala no paço, por ela chefiada e constituída pelo seu confessor, pelo seu secretário particular e pelo marquês de Saint-Romain, enviado secreto de Luis XIV. Souberam os conjurados atrair o infante D. Pedro à sua causa. Aberta a cisão entre este e o rei, a rainha vai tecendo toda a trama para a demissão do marido. Isolado, D. Afonso VI é incapaz de reagir, e assim, D. Pedro, no dia 5 de Outubro de 1667, entra no paço à frente dos seus partidários. Prepara-se a anulação do casamento, que vem a efetivar-se poucos meses mais tarde, obtendo-se a abdicação do rei, que fica detido no paço, enquanto D. Pedro passa a dirigir os negócios do Estado, convocando cortes em que foi jurado príncipe herdeiro. Entretanto, em 1668 o casamento do rei é declarado nulo, casando a Rainha com o cunhado. Em 1669 D. Afonso foi desterrado para Angra do Heroísmo. Voltou ao Reino em 1674, sendo encerrado no Palácio de Sintra, onde morreu nove anos depois, no dia 12 de Setembro de 1683.








Julga-se que D. Afonso VI sofreria de uma doença do foro psicológico chamada "Sociopatia". Henry Gleitman, in Psicologia,  descreve assim esta doença:

Sociopata é um indivíduo que está continuamente a envolver-se em sarilhos com o outro e com a sociedade. É totalmente egoísta, insensível, impulsivo e irresponsável. As suas dificuldades iniciam-se normalmente com (...) episódios de fuga de casa e com uma "adolescência selvagem" marcada por beligerância, experiências sexuais precoces e promiscuidade. Podem verificar-se igualmente infrações como atear fogos ou crueldade para com os animais. Posteriormente surgem várias ofensas menores que freqüentemente escalam para sérios delitos legais e sociais. Mas as características particulares dos sociopatas são ainda mais graves, dado serem totalmente desprovidos de sentimentos genuínos de amor ou de lealdade para com qualquer pessoa ou grupo. Manifestam igualmente relativa inexistência de culpa ou ansiedade. Como resultado, o sociopata é uma criatura do presente cujo principal objetivo é o de gratificar os impulsos imediatos, com poucas preocupações relativamente ao futuro e ainda menos remorso relativamente ao passado. Os sociopatas não estão verdadeiramente socializados. Não se trata de animais de matilha mas sim de genuínos solitários. (...) Os sociopatas não obedecem a qualquer código de conduta, entregando-se prontamente aos impulsos do momento.: